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Aos poucos, o otimismo gerado inicialmente foi se esvaindo com o sangue de moradores atacados por policiais e com o sangue dos próprios agentes do Estado. Entusiasta dos bailes, FB costumava jogar notas de dinheiro do alto do camarote, ao som de uma paródia composta por MC Orelha a partir do tema musical do programa Sílvio Santos12 Facina e Palombini: , p. Fazia uma tarde ensolarada naquela terça-feira e algumas crianças jogavam futebol na quadra que por anos recebeu, todos os fins de semana, MCs, artistas, jogadores de futebol e alguns dos bandidos mais famosos do Rio de Janeiro, além, é claro, de milhares de funkeiros. No caso da Chatuba, algumas preferências musicais de FB eram conhecidas por todos. Eu largava tudo que eu tenho hoje só pra voltar a esse tempo! Muito mais que um orientador é um desses amigos que nos faz crer na existência de uma ordem superior: esse encontro tinha que acontecer. Procurei fazer com que aquilo ali se estendesse a cada 24 horas. Às vezes é o convívio com os caras. Eu com 14 ele com 16 Paulo Victor: Aí, vou te falar! Mv Bill Você ri da minha roupa ri do meu cabelo, mas tenta me imitar na frente do espelho. Por outro lado, ele reinsere estes seres no plano da humanidade pela via do afeto, através de laços de afinidade que suplantam preconceitos. O termo possui diversos significados. De acordo com as gravações podem constar nomes de bandidos da localidade, do DJ que comanda o baile, etc. Quando me dirigi à Penha para conhecê-lo em abril de , especulava no caminho como seria aquela pessoa que todos me descreviam sob uma aura quase mítica. Por este motivo, o dia 8 de maio de foi um dos mais marcantes tanto para esta pesquisa, como na minha vida.

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As casas em torno da quadra, antes transformadas em bares e lanchonetes para receber os frequentadores dos bailes, agora tinham suas paredes novamente fechadas dado o esgotamento da fonte de renda representada pelo baile, que sustentava famílias inteiras. Espécie de panóptico a assombrar o antigo ambiente de lazer Facina e Palombini; , p. Apesar disso, o Byano que nos falava naquele dia anunciava outro momento histórico. À medida que entrevistava e me aproximava de alguns MCs e DJs sempre me perguntavam se eu havia conhecido um baile de favela.

O baile da Chatuba sofreu uma mudança de estatuto eloquente. Bom, o que dizer sobre isso? Porra, foi muita gente e pra que? Eu respondo: prefiro com bandido porque rola nosso baile, nós ficamos à vontade, a favela é nossa e eles só administram, pronto falei. Essas demarcações que os jovens produzem através de si engendram territorialidades em afirmações políticas cotidianas. Ao crescer em meio à juventude favelada, os varejistas de drogas em geral compartilham valores, códigos de conduta e gostos que se aproximam daqueles cultivados por outros jovens com vivências semelhantes, além de estabelecerem com alguns moradores relações de amizade, afinidade e laços de parentesco, como mostrarei no próximo capítulo.

No caso da Chatuba, algumas preferências musicais de FB eram conhecidas por todos. Porra, aí vagabundo subiu aqui e veio aquele mar de gente. Nego caiu do palco, se machucou, a equipe [caixas de som] caiu em cima da menina e quebrou a perna da garota Automaticamente tudo novo.

No dia 7 de Março de , chegamos cedo à Chatuba para acompanhar seu retorno desde o momento em que se ouviriam primeiros sons a testarem a potência das caixas.

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Segundo Byano havia nos contado, o antigo comandante da UPP local era o principal empecilho a qualquer tentativa de retorno do evento Esse aí era brabo mesmo. Porque o cara é totalmente ditador, totalmente escroto. Com fuzis em punho distribuíam olhares sisudos aos moradores presentes. Vasculhavam os quatro cantos da quadra, subiam pela arquibancada para se fazerem ver. A cena imitava a performance dos bandidos nos bailes de favela. Um arauto dos novos tempos.

A lei que reconhece o funk como cultura - lei estadual n. O funk continuaria a ser caso de polícia. Idem: , pp.

Byano havia nos contado que muitas vezes os bailes em que trabalhava se encerravam apenas ao meio dia ou às 13h. Como dito anteriormente, apenas a partir da meia noite uma quantidade mais expressiva de pessoas adentrou a quadra. Era difícil acreditar que o baile realmente acabaria às 2h, mas Byano foi pontual. Com medo, lógico, né? Eu sem um puto no bolso. Na terceira semana os mesmos me pegaram no mesmo local. Um baile meio playboyzado, só que com favelado.

Playboy de favela vamos dizer assim. Baile do Mandela Em meados de maio pude conhecer o baile do Mandela Nenhum deles aparentava ter mais de oito anos.

Todos o conheciam, sabiam onde ele morava e dois deles se candidataram a levar-me até ele. No caminho vi alguns adolescentes falando nos radinhos e uma boca de fumo que parecia guardada apenas por um rapaz de pistola. Retornamos e o espaço continuava deserto. Agradeci aos garotos e fui para um bar na rua principal, onde algumas dezenas de pessoas curtiam uma roda de pagode.

Aguardei por meia hora e retornei à quadra. Desta vez, porém, três rapazes ocupavam o palco. Esta história veio seguida imediatamente de um desabafo. Com o crescimento de diversos sites de compartilhamento de mídia — principalmente o Youtube — essa categoria tem adquirido um estatuto próprio. O contêiner da UPP local fica a aproximadamente duzentos metros da quadra onde ocorre o baile.

Pela rua principal onde o bar se localizava, algumas jovens passavam a todo o momento pilotando motos de aparência luxuosa, como as que aparecem com frequência em clipes mais recentes de funk. Seus cabelos cacheados às vezes chegavam a encostar no assento da moto.

O silêncio foi geral e denso.

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E o baile seguiu. Foi Gustavo quem me explicou que a homenagem havia sido feita para um menor que trabalhava no varejo de drogas ilícitas e havia sido morto em confronto com a polícia. Um homem claramente de fora da comunidade e completamente sozinho num evento como aquele tende a levantar suspeitas, principalmente pela possibilidade de tratar-se de um P2: policial infiltrado que percorre favelas, às vezes com câmeras escondidas, para identificar os varejistas de drogas ilícitas, pontos de venda, etc.

Desde que nos tornamos amigos, havia deixado claro meu interesse em conhecer um baile de favela e ele prometeu que me levaria. Eles acabavam de sair de outro show na Zona Norte. Seguimos para o 20 O nome da localidade é fictício. O baile ficava muito lotado, a quadra parecia pequena, e nunca uma briga!

Havia uma harmonia coletiva no caos organizado. Rosenblatt e Palombini, [grifo meu] Aguardamos em torno de vinte minutos até que Copinho e o DJ Mibi se dirigissem ao pequeno palco.

Acenei em resposta, deixando claro que estava tudo bem. Ao completar dezoito anos, Toninho passou a trabalhar como office boy para um desembargador. Passava o dia levando documentos de um prédio a outro no Centro do Rio de Janeiro. Até hoje, Toninho se dedica à atividade de DJ paralelamente à de assessor jurídico. Muitos desses amigos de infância atuam, ou atuaram como varejistas de drogas no morro do Canudinho e estavam presentes inclusive no baile que pude frequentar.

Apesar disso, o baile na quadra foi suspenso pela UPP local por conta de um conflito ocorrido em meio à festa, no início de Toninho foi um dos principais articuladores desta retomada. Asad: , p. Oliveira: p. A realidade de político é de quem mora na pista, tem dinheiro, onde a politicagem funciona. Aqui ó, isso aí é esgoto a céu aberto.

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Político faz o que aqui? Olha o lixo Qual é mano! Por isso que nossa realidade é isso aí. Às vezes é o convívio com os caras. Se na minha casa tem um político, eu te garanto que eu ia ser político. Mas na minha casa teve um escritor, do funk! Os caras sobrevivem daquilo. O dia a dia deles é isso. Todo final de semana é isso que eu tenho pra mim. Nas três favelas citadas anteriormente — talvez seja possível dizer que em todas ocupadas pelas UPPs — as atividades de compra e venda destas drogas subsistem, embora nem sempre evidentes por armas de grande porte guardando os pontos de venda.

A experiência que pude observar no baile do Mandela foi eloquente. Focar nos processos conflituosos que os produtores dos bailes enfrentam acaba por deixar de lado a beleza envolvida no resultado de seus esforços.

Aos poucos, o otimismo gerado inicialmente foi se esvaindo com o sangue de moradores atacados por policiais e com o sangue dos próprios agentes do Estado. A bala vai comer É sobre isso que nos debruçaremos a partir de agora.

Por este motivo, o dia 8 de maio de foi um dos mais marcantes tanto para esta pesquisa, como na minha vida. Nos encontramos na quadra do Coroado25 e caminhamos a procura de um lugar que lhe parecesse ideal para nossa conversa. Após alguns minutos de caminhada paramos no bar do Claudio, pequeno 25 O Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco do Coroado é um tradicional bloco carnavalesco da Cidade de Deus. No decorrer desses encontros pude construir amizades sólidas que possibilitaram um contato constante, mas isso nem sempre foi possível: por ter uma agenda muito cheia, as horas que meus interlocutores conseguiam reservar para nossas entrevistas eram fruto de um grande esforço.

Cidinho tem como característica uma eloquência hipnótica, acompanhada por uma linha muito própria de encadeamento das ideias que tornava sua fala arredia a qualquer tipo de direcionamento. Foi quando nossa conversa tomou um rumo inesperado. Os dois passaram a rememorar uma série de amigos daquele tempo.

Alguns destes amigos atuaram no varejo de drogas ilícitas e muitos tinham em comum o fato de terem sido mortos na dinâmica inerente à política de guerra às drogas. Enquanto trocavam as primeiras palavras sobre esse assunto, um rapaz de boné que passava pela calçada foi reconhecido pelos dois. Paulo Victor era um grande amigo de ambos e havia exercido a atividade de bandido na Cidade de Deus. Quantos anos você tinha quando perdeu o primeiro amigo de chorar pra caralho?

Caralho, meu amigo morreu! Eu lembro que o meu primeiro foi o Barata. Eu com 14 ele com 16 Paulo Victor: Aí, vou te falar! E eu ficava na casa dele até hoje Cidinho: E esse foi o primeiro que você sentiu? Mas teve gente até antes dele, o primeiro mesmo qual foi? Paulo Victor: O primeiro foi o falecido Quichute. Claudio: Quichute era o meu melhor amigo Dennis: Quichute era teu brother? Claudio: Meu melhor amigo Até arrepio.

Paulo Victor: Ele era bandido aqui do AP, pô!

Moleque tiroteio puro, sem neurose cumpadi! E tinha muita gente que falava "po, ele era bandido" Cidinho: Mas se dava bem com todo mundo Claudio: Quando foi que ele morreu mesmo?

Paulo Victor: Po, vou te falar, se eu to com 35 ele tinha a mesma idade do que eu O Ígor com 17 anos ele foi frente aqui do AP Claudio: Quando ele era frente daqui ele vinha aqui com a rapaziada e eu falava com todo mundo normal porque a gente era amigo, aí depois foram me falar que ele era o frente A essa altura da conversa, um amigo em comum dos três passou pela calçada e foi saudado por todos. Após cumprimentar a todos, sentou-se e passou a escutar atentamente as histórias sem se manifestar.

Sendo que eu tava com frio, o amigo chegou tirou a camisa dele e botou a camisa dele em mim. Cidinho sugeriu que talvez faltassem três ou quatro, mas isso pouco importava diante do absurdo que PV destacava: o genocídio que aqueles homens na faixa dos 30 anos haviam acompanhado de perto ao longo de sua juventude. Manter-se encoberto; encobrir-se, esconder-se, toldar-se dissimular-se 3.

Conter em si; estar à volta de; cercar espaço acompanhando o contorno; cingir, contornar, rodear 5. Estar, ficar ou dispor algo em volta de; rodear, cercar 6. Ligar-se a alguém amorosa ou sexualmente 9. Dar origem a, ter como consequência ou resultado; implicar, importar Tomar conta de; dominar, invadir, ocupar Houaiss: , p.

Ato ou efeito de envolver-se; envoltura 2. Este capítulo pretende abordar a ironia que atravessa essa palavra, cada vez mais ligada a demarcações normativas estatais e paulatinamente distante de suas outras implicações possíveis. Por esse motivo, trazê-las à tona contribui para matizarmos o embate semântico em torno desta categoria. Vianna e Farias: , p. Ibidem: , p. O olhar que esses funks propõem traça um panorama complexo desses bandidos, suas motivações, reflexões e vivências.

Tamanho sucesso contrasta com o jeito tímido e pacato de Rodson, que afirma sair de casa raramente, apenas para fazer shows aos fins de semana.

Nosso contato foi intermediado por outro MC da localidade, conhecido como Dourado. E cada um vai prum lado Rodson: Um é trabalhador, outro é bandido, outro é MC, outro é jogador de futebol, cada um Dourado: É essa diversidade.

Cada um vai pro lado que escolheu, por isso que as vezes a gente conhece fulano, conhece cicrano, é aquilo.

Rodson: Mas a gente vê, né? Dourado: É até um preconceito.

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Tu vai continuar falando e conversando, mas cada um no seu quadrado. Sua pouca idade contrasta com sua vasta experiência no mundo funk, no qual atua desde os 15 anos. Na noite em que realizei a entrevista pude conhecer a casa dela, que denotava uma vida simples e sem muitos recursos.

Eu engraxava sapato mesmo pra ter um dinheiro pra mim, ta ligado? Pra eu ir no fliperama, pra ir na lan house, pra ir no baile e tal Em torno dos seus 14 anos, Fhael passou a trabalhar numa boca de fumo próxima à sua casa.

Pouco tempo em contato com o mundo do funk foi o suficiente para Fhael abandonar a vida no varejo de drogas ilícitas e dedicar-se exclusivamente à sua arte. De acordo com as gravações podem constar nomes de bandidos da localidade, do DJ que comanda o baile, etc.

E o Praga, tudo que ele fala é comestível, mano, e enche a barriga. Tudo que ele falava eu comia o que ele falava. Até nas brincadeiras, as palavras dele tu come aquilo, aquilo é comestível. Tudo que sai da boca dele é semente, resumindo assim. De pouca gente eu posso falar como eu falo do Praga porque eu convivi ali com ele, com a família dele, com as dificuldades, com as desigualdades que ele tem.

Com os defeitos, com as qualidades que ele tem, ta ligado? Ele morreu e o Magrinho viu isso no jornal e queria gravar uma parada sobre esse cara. E eu com voz zero, sabe o que é voz zero? Aí eu fiz um bagulho pra ele D: Fez ali na hora? F: Foi. Mas era tudo meu. Algumas das histórias mais interessantes que ouvi sobre vivências que motivaram composições vieram de Frank. Essa é uma história verídica. Deram um jeito de falar comigo pelo telefone. Eu tava sempre no Complexo. Eu pulei muro junto com bandido, eu corri muito junto com bandido Dennis: Mas isso no meio do baile?

O que eu ia escrever nas minhas letras era sobre isso. Eu vivia sob isso, tiro, polícia sequestrando e pedindo dinheiro pra liberar, o bandido dando tiro em cima da polícia, a polícia dando tiro em cima do bandido e acertando morador.

De volta aos MCs Rodson e Dourado, a certa altura de nossa conversa ambos narraram como surgiu o interesse deles por funk.

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Além disso, lembraram de MCs que eram famosos na Nova Holanda, mas pouco conhecidos em outras localidades. Ao longo da entrevista a filha de Rodson, que aparentava cerca de 8 anos de idade, corria a todo momento pela casa, brincando com outras crianças que moravam na mesma rua.

As vezes do nada troca de tiro Nós passa o dia a dia da favela. Dourado: Porque quem mora na Zona Sul vai detalhar o que? Quem mora na favela vai ver o que? Isso sim pra mim é apologia à violência. Hipocrisia do caralho, mídia suja. Tem gente que se promove atacando e gente que se promove defendendo Alguém que esteja do lado deles na nossa sociedade Adriana Facina aborda as questões colocadas por Copinho.

Facina: , pp. Idem, p. Pixote58, você pode me ajudar, foi o primeiro filme brasileiro com requinte de tiro, assim? Claudio: Que eu me lembro é, eu era garoto. Dennis: Isso foi em que ano mais ou menos?

Pixote eu vou te falar legal, 86, Aqui como é que eu fico ó [mostra o braço arrepiado]. O que me colocou aqui hoje foram os proibidões, quem conhece o Cidinho conhece pelos proibidões O problema parece residir em quem produz essas narrativas. Da mesma forma que a perspectiva construtivista do autor se volta aos relatos orais dos excluídos, marginalizados e das minorias, os autores e intérpretes dos proibidões reconhecem como ninguém que o narrar, experiência eminentemente coletiva60, se insere em relações de poder que, ao apagarem pelo silêncio ou pelo 59 Alguns trabalhos apontam que o silêncio também é um ato político de sobrevivência.

O direito à narrativa como palco de embates constantes perpassa, inevitavelmente, todo este trabalho. Sendo que a gente mostra que nem tudo que acontece aqui vai pra mídia. O projeto do crime organizado era esse, os caras se juntarem, vender a droga, assaltar, arrumar dinheiro e criar um código pra poderem coexistir entre eles.

Como é que você agrada o pobre? Dennis: Isso era muito comum aqui na Penha? Praga: Muito, muito. Hoje em dia nem tanto, mas antigamente se o cara chegava com a receita de um remédio e fosse numa boca de fumo os caras mandavam comprar o remédio na hora. Isso aí é admitir a falência! Se um traficante vira herói pra eles isso é admitir a falência. A gente falhou mesmo. Complexo mil, Rocinha mil, Jacaré mil. Vai dar merda! O vizinho a mesma coisa. Isso aí mexe com a mente do adolescente, mexe com a mente do jovem e o governo admitir isso é decretar falência.

Porque esse estigma, tipo assim, o e de objetos que apenas nós vimos. Ficou 10 anos, 20 anos, foi preso, tirou cadeia, voltou e taí, po. O Marcinho hoje é o cara, ele é o cara. No Comando Vermelho ele é o primeiro. E o Marcinho hoje é um preso político. As produções feitas pelos DJs — tanto os que tocam em bailes de favela quanto os de internet — catalisam o potencial disruptivo destas narrativas.

Um tiro acabou de explodir. A guerra deixa de ser anunciada para ser minuciosamente descrita numa narrativa ritmada pelo som das balas. De acordo com Praga, FB tinha certeza de que ela havia sido feita pra ele e a considerava uma de suas prediletas: O FB tomou pra ele, achou que era pra ele.

Por que um gênero musical é capaz de despertar tamanho estranhamento? O funk incomoda os beneficiados por assimetrias bastante arraigadas no sistema social brasileiro, mas, principalmente, os interessados em perpetuar essas assimetrias na contemporaneidade. As reelaborações estéticas produzidas por estes artistas incomodam porque produzem enquanto sujeitos atores que o Estado e a mídia corporativa buscam lançar no silêncio da marginalidade. Morte nos planos físico e discursivo.

Como uma forma de incluir hierarquizando, cria-se o mito da democracia racial. Copinho estava bastante entusiasmado com os preparativos e frequentemente me mandava mensagens falando sobre seus planos para o clipe.

Era difícil passar um minuto sem rir com eles. E tudo isso sabe por quê? Em alguns takes, usava uma calça colorida e uma camisa branca, em outros, ele e seus amigos trajavam coletes e portavam armas de airsoft67 que simulavam fuzis.

Depois riam-se bastante mostrando as fotos para os companheiros. Tira esse colete aí! O que eu fiz pra merecer isso? Essas brincadeiras, que ouvi tantas vezes ao longo de minhas vivências em campo, mexeram comigo de uma forma diferente naquele momento. O funk estava ali, naquelas brincadeiras. Quero dizer que o funk encarna muito bem o saber transitar pelos entre lugares de um cotidiano militarizado, numa dança sutil que muitos moradores de favela aprendem desde cedo. Eu passei a saber o que era sonhar depois que eu virei cantor, entendeu?

Porque antes meu sonho era acordar vivo. Procurei fazer com que aquilo ali se estendesse a cada 24 horas. Policiais militares dispararam cento e onze tiros no carro em que Wilton, Wesley, Cleiton, Carlos e Roberto se encontravam Os policiais, como de costume, tentaram registrar o caso como auto de resistência e implantaram uma arma no carro das vítimas, acionando a tal zona de incerteza capaz de transformar vítimas em réus.

Dessa vez, porém, foram descobertos. É mais um capítulo no extermínio da juventude negra favelada e, para aqueles que restaram, é mais um dia sobrevivendo. Nas palavras de Facina Sobrevivem porque portam vozes imemoriais tornadas contemporâneas que produzem outras versões sobre o que é o mundo e o que ele deveria ser. Ao narrar-se, Fhael fala do sonhar, do ser favelado e do ser MC. Da mesma forma que na leitura de uma partitura encontram-se grafados tanto os sons quanto as pausas, esboçarei brevemente alguns destes eloqüentes silêncios.

A rede de relações na qual me inseri era composta basicamente por homens heterossexuais. Também me pareceu instigante o fato de meus interlocutores, em sua maioria, se identificarem como evangélicos. No início de minhas experiências em campo costumava brincar que eu fazia um trabalho sobre funk cuja trilha sonora era gospel: um exagero que usava como artifício para sublinhar meu estranhamento inicial.

Embora isto seja brevemente abordado aqui, também foi bastante silenciado. Como produzir uma etnografia da festa? Como dar sentido ao consumo de determinadas drogas? Considero que isso seja reflexo tanto da especificidade de minha entrada em campo, quanto da minha dificuldade em trazê-los à tona narrativamente.

Outros DJs disseram o mesmo, me passaram seus contatos e se propuseram a me levar nos bailes em que atuam. Anthropological Conceptions of Religion: Reflexions on Geertz. Man, New Series, Vol. Ensaio por uma Criminologia Perspectivista. Favela é comunidade?. Machado da org. Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro.

Petrópolis: Ed. Um século de Favela. Minneapolis: Ed. Rio de Janeiro: Ed. The State and Its Margins. In: Anthropology and the Margins of the State.

Que Batida é Essa? Funk, que Batida é Essa? Rio de Janeiro, Avena: Ediciones Era, My Pussy é o Poder. La Mémoire Collective. In: Revista Brasileira de Linguística Aplicada, vol. Belo Horizonte, In: Revista Mana, vol 20 1. In: Revista Instituto de Estudos Brasileiros, n. Musicologia e Direito na Faixa de Gaza.

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Memória, esquecimento, silêncio. In: Revista Estudos Históricos. Favelas Cariocas Ontem e Hoje. Movimentos Urbanos no Rio de Janeiro. A Guerra. In: Cadernos Pagu.

As duas faces do gueto. Paulo Cezar Castanheira. Aquelas siglas falavam de territorialidades em disputa num jogo de provocações bastante eloquente. Uma zona de incerteza surge dessas conexões e é bem representada pela polissemia dos bondes: Uma das formas mais tradicionais de as galeras — grupos de amigos de uma mesma comunidade — ocuparem a cidade é por meio dos bondes.

O termo possui diversos significados. Muitos bondes gostam, portanto, de ser vistos como ameaçadores, tanto que se denominam bondes sinistros ou bondes do mal. Cymrot: , p. Na especializada, ele foi indiciado por apologia ao crime. O Dia: , apud. BAKER: , p. Quem gosta de sair pra roubar, ta ligado? Se liga nessa! MC Frank — Bonde do A letra deste funk pode mudar de acordo com o baile.

O Absoluto exterior ao discurso ao qual afirmam se ligar como forma de conferir autoridade a si Maingueneau, , p. Baker: , p. No dia 25 de março pude conhecer Frank pessoalmente numa visita a sua casa. A mudança o deixou triste, sentia falta dos amigos e do lugar onde havia morado durante toda sua vida. Para o jovem que sonhava em ser MC, aprender com aqueles mestres era algo de grande valia também no mundo funk. Frank considera que essa vivência contribuiu muito para sua habilidade em criar versos de improviso.

MC Frank — Bota pra cantar Muitos sucessos vieram em seguida e consolidaram Frank como um artista de peso no mundo funk. Fiz amizade com muitos, mas me envolver mesmo criminalmente nunca, só musicalmente. Os nove dias que passou encarcerado foram de medos e incertezas quanto ao futuro, mas o trouxeram de volta aos holofotes: Dennis: E essa história de vocês terem sido presos?

Esse evento que ficou famoso A Justiça liberou a gente porque foi até Brasília, né? Dennis: E você acha que isso transformou sua carreira de alguma forma?

Frank: Melhorou, melhorou pra caralho. Frank: Foi, aí acabou ficando um clima ruim, um clima de medo. Aí foi fluindo, cada um escrevendo um pedacinho e aí virou um hino. Nós éramos jornalistas verbais.

Nossa parada era mais narrada, mais cantada, mais interpretada. A cadeia tremeu Porque na pista nós saímos como vilões, mas no morro nós saímos como heróis. Ela tinha um primo que era promotor e um marido que era juiz, eles que fizeram tudo. Por outro, Smith também joga propositalmente com essa ambivalência: Smith: [Falando da transferência de presídio] Tem um policial que só anda de chapéu de caubói. Foi ele um cabeludo que foi la buscar a gente.

E aperta bem! O aumento de convites para shows após as prisões expressa muito bem esse ponto e traz à tona o interesse por essas performances transgressoras. Todos eles mudaram o direcionamento de suas carreiras e atualmente dedicam-se a outros subgêneros.

Nascido e criado no Complexo da Penha, mais especificamente na Vila Cruzeiro, Praga frequentou a escola até a sétima série do Ensino Fundamental, mas nunca deixou de estudar por conta própria.

Leitor assíduo, tem como principais interesses livros que abordam o universo da criminalidade e a Bíblia: leituras que se conectam de modo harmonioso em suas composições. Quando me dirigi à Penha para conhecê-lo em abril de , especulava no caminho como seria aquela pessoa que todos me descreviam sob uma aura quase mítica. Num primeiro momento estranhei o contraste entre sua estatura elevada e o baixo volume de sua voz.

Essas cisões repercutem no movimento funk: um MC oriundo de uma favela dominada pelo Comando Vermelho dificilmente canta em bailes sob influência de facções rivais e vice versa. Numa conjuntura em que os bailes têm se tornado escassos devido às UPPs, romper essas barreiras seria uma forma de fortalecer o movimento funk.

Apesar disso, fazem parte do espectro de sentidos que os varejistas de drogas ilícitas ajudam a moldar, limitando fronteiras e pertencimentos por meio de relações de força.

Aí ela foi discriminada pra caramba nesses negócio. Mas ela foi discriminada. Dennis: Mentira! Rodson: É, cara! Dourado: É o que eu faço, entendeu?

Po, nós somos artistas cara! Levei na minha, fiz o meu show e vim embora, entendeu? Todos afirmaram que, pelo fato de serem artistas, deveria ser natural que se apresentassem em favelas de outras facções. Neste mês, um evento ficou famoso no mundo funk: MC Frank fez um show no morro da Pedreira, reduto do bandido conhecido como Playboy.

Em meu Facebook mais de uma dezena de 33 Celso Pinheiro Pimenta, mais conhecido como Playboy, era o chefe do varejo de drogas ilícitas no Complexo da Pedreira. Ele era um dos bandidos mais famosos do Terceiro Comando Puro. Em nenhum dos casos houve incoerência com o que haviam me dito. No dia 29 de julho de , Carlos Palombini me apresentou a Gustavo Lopes.

Apesar disso, muitos moradores se referem à localidade como Cerra Coral. Após um bom tempo de afastamento das quadras, Fabiano voltou a atuar como boleiro na adolescência, num clube diferente daquele onde havia trabalhado quando criança.

Dessa vez teve a oportunidade de aprender a jogar o esporte que antes apenas observava. Ele pratica o esporte até hoje e se diverte ao contrastar seus amigos no tênis — juízes, desembargadores, engenheiros, militares de alta patente — e aqueles que suas vivências enquanto morador de favela e MC lhe trouxeram. Praga e Copinho se mostraram bastante dispostos a participar e sugeriram aprimoramentos na ideia inicial.

No fim da tarde, Copinho e Praga se despediram: iam ao encontro do MC Rodson, que eu havia entrevistado semanas antes.

Carla e eu passamos mais algum tempo fazendo o balanço de tudo que havíamos discutido naquele dia. Quando lhe respondemos afirmativamente ele se mostrou empolgado. Ele retirou um pen drive de seu bolso e plugou no aparelho de som do bar.

Muitos bandidos guardam suas pistolas sob a bermuda, deixando à mostra o pente. Esta frase faz referência à pistola que se deixa ver pelo pente. Trazer à tona as vivências que motivaram algumas composições é um exercício que permite conectar tudo que foi colocado até agora ao longo deste trabalho.

Ao falar sobre suas composições eles falam também sobre os lugares onde moram, a dinâmica dos bailes, suas relações com os bandidos e como pensam seu trabalho em meio a tudo isso. O fogo consome ambos os lados, propagando um ódio bilateral.

O medo de que essa realidade seja exposta faz com que se imponha o silêncio. Santos: , p. Por eles passam algumas crianças, que acenam sorrindo.

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Por fim, duas garotas interagem com eles, alisando seus cordões de ouro e abraçando-os, numa performance sensual. Sua pouca idade contrasta com sua vasta experiência no mundo funk, no qual atua desde os 15 anos. Na noite em que realizei a entrevista pude conhecer a casa dela, que denotava uma vida simples e sem muitos recursos.

Eu engraxava sapato mesmo pra ter um dinheiro pra mim, ta ligado? Pra eu ir no fliperama, pra ir na lan house, pra ir no baile e tal Em torno dos seus 14 anos, Fhael passou a trabalhar numa boca de fumo próxima à sua casa. Pouco tempo em contato com o mundo do funk foi o suficiente para Fhael abandonar a vida no varejo de drogas ilícitas e dedicar-se exclusivamente à sua arte.

De acordo com as gravações podem constar nomes de bandidos da localidade, do DJ que comanda o baile, etc. E o Praga, tudo que ele fala é comestível, mano, e enche a barriga. Tudo que ele falava eu comia o que ele falava. Até nas brincadeiras, as palavras dele tu come aquilo, aquilo é comestível. Tudo que sai da boca dele é semente, resumindo assim. De pouca gente eu posso falar como eu falo do Praga porque eu convivi ali com ele, com a família dele, com as dificuldades, com as desigualdades que ele tem.

Com os defeitos, com as qualidades que ele tem, ta ligado? Ele morreu e o Magrinho viu isso no jornal e queria gravar uma parada sobre esse cara.

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E eu com voz zero, sabe o que é voz zero? Aí eu fiz um bagulho pra ele D: Fez ali na hora? F: Foi. Mas era tudo meu. Algumas das histórias mais interessantes que ouvi sobre vivências que motivaram composições vieram de Frank.

Essa é uma história verídica. Deram um jeito de falar comigo pelo telefone. Eu tava sempre no Complexo. Eu pulei muro junto com bandido, eu corri muito junto com bandido Dennis: Mas isso no meio do baile? O que eu ia escrever nas minhas letras era sobre isso. Eu vivia sob isso, tiro, polícia sequestrando e pedindo dinheiro pra liberar, o bandido dando tiro em cima da polícia, a polícia dando tiro em cima do bandido e acertando morador.

De volta aos MCs Rodson e Dourado, a certa altura de nossa conversa ambos narraram como surgiu o interesse deles por funk.

Em relação: BAIXAR VALDONYS

Além disso, lembraram de MCs que eram famosos na Nova Holanda, mas pouco conhecidos em outras localidades. Ao longo da entrevista a filha de Rodson, que aparentava cerca de 8 anos de idade, corria a todo momento pela casa, brincando com outras crianças que moravam na mesma rua.

As vezes do nada troca de tiro Nós passa o dia a dia da favela. Dourado: Porque quem mora na Zona Sul vai detalhar o que? Quem mora na favela vai ver o que? Isso sim pra mim é apologia à violência. Hipocrisia do caralho, mídia suja. Tem gente que se promove atacando e gente que se promove defendendo Alguém que esteja do lado deles na nossa sociedade Adriana Facina aborda as questões colocadas por Copinho.

Facina: , pp. Idem, p. Pixote58, você pode me ajudar, foi o primeiro filme brasileiro com requinte de tiro, assim? Claudio: Que eu me lembro é, eu era garoto. Dennis: Isso foi em que ano mais ou menos? Pixote eu vou te falar legal, 86, Aqui como é que eu fico ó [mostra o braço arrepiado].

O que me colocou aqui hoje foram os proibidões, quem conhece o Cidinho conhece pelos proibidões O problema parece residir em quem produz essas narrativas.

Da mesma forma que a perspectiva construtivista do autor se volta aos relatos orais dos excluídos, marginalizados e das minorias, os autores e intérpretes dos proibidões reconhecem como ninguém que o narrar, experiência eminentemente coletiva60, se insere em relações de poder que, ao apagarem pelo silêncio ou pelo 59 Alguns trabalhos apontam que o silêncio também é um ato político de sobrevivência.

O direito à narrativa como palco de embates constantes perpassa, inevitavelmente, todo este trabalho. Sendo que a gente mostra que nem tudo que acontece aqui vai pra mídia. O projeto do crime organizado era esse, os caras se juntarem, vender a droga, assaltar, arrumar dinheiro e criar um código pra poderem coexistir entre eles.

Como é que você agrada o pobre? Dennis: Isso era muito comum aqui na Penha? Praga: Muito, muito. Hoje em dia nem tanto, mas antigamente se o cara chegava com a receita de um remédio e fosse numa boca de fumo os caras mandavam baixar o remédio na hora. Isso aí é admitir a falência! Se um traficante vira herói pra eles isso é admitir a falência. A gente falhou mesmo. Complexo mil, Rocinha mil, Jacaré mil.

Vai dar merda! O vizinho a mesma coisa. Isso aí mexe com a mente do adolescente, mexe com a mente do jovem e o governo admitir isso é decretar falência.